O milagre também vem do céu
Por Nelson Augusto Bohrer, em 28 de janeiro de 2011

O milagre também vem do céu


Nova Friburgo - 1905
















Na noite do dia 11 de janeiro último, seguindo por toda madrugada do dia seguinte, terrível tragédia se abateu sobre a região serrana do Estado do Rio de Janeiro, principalmente nos municípios de Nova Friburgo e Teresópolis. Oito horas seguidas de intensa tempestade que desabou sobre o solo serrano, já encharcado e seriamente comprometido pelas sucessivas chuvas, normais nessa época do ano. Desastre este que ganhou as páginas da WEB, as páginas dos jornais e espaço nos noticiários televisivos em todo o mundo. Classificado pelos órgãos técnicos internacionais como um desastre provocado por deslizamento de encostas, a serra fluminense passa a fazer parte dos registros oficiais como local de ocorrência de um dos mais graves cataclismos mundiais. Oitocentos mortos e mais de 4 mil desabrigados de um total ainda longe de ser apurado. Da janela do meu apartamento, localizado no centro da cidade de Nova Friburgo, a pouco mais de 800 metros do prédio ocupado pela Fundação D. João VI de Nova Friburgo, registrei, através da lente de minha câmera digital, alguns dos momentos dessa terrível tragédia. O Rio Bengalas, incomodado pelo excesso de água em sua calha, vomitou pelas laterais levando lama fétida e detritos através de uma correnteza impiedosa e destruidora, tomando para si todo o vale central da cidade. Misturando-se ao ribombar dos trovões outros estrondos anunciavam, em meio a completa escuridão, os seguidos desmoronamentos dos morros que cercam Nova Friburgo, nosso cartão postal. O inesperado em forma de pedra e lama desceu as encostas, cobrindo casas, destruindo prédios, matando pessoas e deixando o vale coberto de terror, e quando, por alguns instantes, cessavam os estrondos, restavam os ecos dos choros e dos pedidos de socorro. Jamais esquecerei a madrugada do dia 12 de janeiro de 2011.

O dia clareou revelando uma cidade disforme, doente, completamente derrotada. Então um medo repentino me tomou de assalto: - Como estaria o Arquivo Pró-Memória de Nova Friburgo? Localizado no andar térreo de um prédio no centro da cidade, poucas seriam as chances de escapar ileso daquele desastre. O desespero tomou lugar e espaço na medida em que eu, apressadamente, tropeçava em entulhos e chafurdava na lama fedorenta, que se espalhava para todo lado, bloqueando ruas e calçadas, manchando paredes, soterrando praças e jardins, sepultando cadáveres. Minutos depois os olhos miravam o prédio do Arquivo Pró-Memória, aumentando a ansiedade e acelerando o movimento das pernas. Ao redor tudo destruído: o Porão da Arte, que funciona no subsolo do prédio da Escola de Arte afogou-se na enxurrada; o Shopping da Praça deixava a vista a destruição das lojas do pavimento térreo, igualmente atingido estava o Shopping Willisau Center, na esquina adjacente a nossa; e por fim, bem do nosso lado o Bar Bolero com uma aparência nada convidativa.

Parei defronte a porta de vidro e por alguns segundos hesitei. Durante 2 anos trabalhamos intensamente fazendo o inventário dos bens, aproximadamente 1,5 milhão de itens. Catalogando, embalando, reorganizando segundo uma nova metodologia e, por fim, digitalizando e disponibilizando no portal do Centro de Documentação. Os parceiros foram muitos, pois os recursos sempre foram escassos. Afinal, teria sido todo esse sacrifício em vão ? A porta blindex, que dá para a Rua Dante Laginestra deixava a vista o interior do corredor de acesso e o salão lateral, ambos com o piso coberto de lama. Entre esse piso e o piso do Arquivo Pró-Memória apenas mais um raso degrau. Minhas últimas esperanças ruíram por completo. Respirei fundo e entrei, decidido a por um fim em tudo aquilo.

Não me considero um idoso, apesar dos poucos anos que me separam da terceira idade conforme determina a lei dos homens. Entretanto, vivi tempo suficiente para saber que, definitivamente, tem "coisa" capaz de embaralhar a cabeça de qualquer um, impedindo-o de desenvolver qualquer explicação mais científica. Pois é, paradoxalmente, a ajuda também veio do céu, trazida sei lá por quem, é claro, depois da devida autorização divina. Talvez algum friburguense mais preocupado, ou até mesmo um pelotão deles que aqui chegou com a santa missão de barrar a força destruidora da natureza e salvar nossa História. E assim se fez. Milagrosamente, a água que penetrou no interior do arquivo poderia ter sido colhida com um lenço e depositada numa xícara de chá.

De qualquer forma fica registrado aqui a certeza de que o Arquivo Pró-Memória de Nova Friburgo deve mudar de endereço com a urgência necessária, objetivo principal da Fundação D. João VI, doravante.

Nessa parceria que já dura 1 década inteira, a Energisa tornou-se nossa principal aliada e, graças a ela, a História de Nova Friburgo permaneceu resguardada. O espaço por ela cedido, serviu a municipalidade durante todo esse tempo, permitindo com que o arquivo pudesse servir aos interesses de estudantes e pesquisadores. Entretanto, o Arquivo Pró-Memória cresceu em virtude das inúmeras doações que recebeu ao longo desses anos o que tornou o espaço inadequado, agravado ainda pelo trabalho de digitalização que é realizado em suas dependências. Então, a mudança é prioritária e inadiável. A Fundação D. João VI, a PMNF, a Energisa e demais parceiros estarão empenhados com esse propósito.

Para refletir: a foto mostrada no topo desta página, parte do acervo do Arquivo Pró-Memória, mostra uma vista parcial da cidade, a extensão da Rua General Osório desde a Praça do Suspiro até o Colégio Anchieta. Nela é fácil observar três desmoronamentos: Um primeiro por detrás da Capela de Santo Antônio; um outro maior ao lado da subida da residência do Barão de Duas Barras, atual sede da Faculdade de Odontologia (UFF); e um terceiro menor, mais ao alto, no centro da foto, escorregando em direção ao mesmo palacete.
Pois bem, essa foto é do ano de 1905, ou seja, há 106 anos passados. Reflitam e tirem suas próprias conclusões.


Nelson A. Bohrer (Guguti)

Comentários (1)
zane: 09/02/2011 20:21
É realmente incrível!!!! A história se repete mais de 100 anos depois, os desabamentos são praticamente nos mesmos lugares. E agora, devemos ficar atentos a outros lugares de outras trajédias de anos atras?  

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